quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Tormento das Raimundas e Marias


10/12/2011
Mauro Pereira
Anunciando a chegada do final do 9º ano da Era da Mediocridade, o mês de dezembro teve um início igual aos outros onze que o antecederam e tudo indica que terá o mesmo desfecho. Denúncias de superfaturamento em obras da Copa do Mundo, desperdício do dinheiro público em puxadões improvisados, a dor que não cessa da presidente e a queda de mais um ministro, o 16º em nove anos de governo petista. Quinze por envolvimento em atos de corrupção e um por problemas psicológicos. Nessa mesmice indecorosa, dois fatos diferentes entre si, mas intimamente ligados, me chamaram a atenção. Um pelo viés insólito. Outro pela dramaticidade implícita.
Recepcionados por Hugo Chávez, sob o patrocínio da CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), reuniu-se em Caracas a fina flor da democracia imposta à América Latina e ao Caribe. Desfilaram sob os holofotes da imprensa capitalista a ser censurada democratas excêntricos da estirpe dos Castros, dos Morales, dos Correias, dos Ortegas, das Kirchners. Todos em torno do mesmo ideal: socializar os latinos e caribenhos e capitalizar os dividendos oferecidos pelo poder. Tanto os políticos como os econômicos.
Aquele ajuntamento de tiranetes decadentes, cada um embalando o sonho de ter seu país particular, uma imprensa companheira sensível às suas aspirações, a população submetida a circo e a oposição à bala, aprovou por unanimidade moção que celebra a hostilidade aos americanos do norte e vetou o ingresso dos Estados Unidos e do Canadá na entidade. Decididos a garantir que a injustiça não prospere em qualquer quadrante continental, negaram-se a abrigar no seio imaculado da CELAC os regimes autoritários instaurados nas duas nações e repudiaram com veemência o desrespeito aos direitos humanos sistêmico e a corrupção endêmica que assolam aquelas aquelas paragens. Em nome dos brasileiros que a elegeram, Dilma Rousseff assinou o documento final que ridiculariza nossa inteligência e desdenha da fome que consome os latinos-americanos e os caribenhos ao ameaçar com a expulsão os governos autoritários e antidemocráticos do Canadá e dos EUA.  Representante de uma das democracias mais sólidas e evoluídas do planeta, coube ao presidente cubano Raul Castro o privilégio de ser um dos primeiros a chancelar a farsa.
Contrapondo-se à orgia democrática latino-caribenha, o Brasil tomava conhecimento de um drama que se desenrolava em algum lugar do Maranhão. Seus personagens principais, o apresentador de televisão Gugu Liberato e uma família de oito pessoas que sobrevivia em condições sub-humanas representada por Maria, a mãe, precocemente envelhecida pela miséria e Raimunda, a filha quase adolescente, cujo olhos tristes não ousavam encarar seu interlocutor, talvez com medo de que ele descobrisse alguma culpa que nunca fora sua ─ ou percebesse a vergonha que era sua mas que jamais produzira. Ambas, mãe e filha, envilecidas pelo abandono.
De repente, vi saltar ali na minha frente a realidade estampada nas pesquisas publicadas pelo IBGE e pela UNICEF. Os números frios das estatísticas ganhavam vida, rostos e nomes e revelavam, com todos os agravantes da degradação absoluta, a condição de precariedade extrema que assola uma parcela significativa da população brasileira. Morando com os sete filhos em um casebre de pau-a-pique coberto por folhas de palmeira e equilibrado em paredes esburacadas que ameaçavam ruir a qualquer momento, aquela brasileira valente sobrevive com o auxílio-doença de uma de suas meninas. Seu corpo alquebrado já não agüenta quebrar coco para prover o sustento. Sem rede de esgoto instalada e a fossa séptica saturada, até aquele domingo que as redimiu, ela e sua prole usavam a mata no fundo do quintal como banheiro e tinham no poço imundo ao lado da palhoça a única possibilidade de saciarem, ainda que com a água contaminada, a sede que as atormentavam e adoeciam.
Assim como elas, teimam em resistir a essa realidade devastadora centenas de milhares de Marias e Raimundas espalhadas por esse chão brasileiro. Sobrou somente a dignidade que as mantém íntegras e prontas para enfrentarem com a mesma coragem e resignação as adversidades que as martirizam, que as autoridades não veem e a propaganda oficial exclui. Desnecessário dizer que esse quadro desolador não é exclusividade só dos brasileiros.
Que a sensibilidade caudilhesca da CELAC mire-se no exemplo dessas mulheres. Apenas Marias e Raimundas. Se bolivianas, venezuelanas ou brasileiras, pouco importa. Todas produtos inteiros de uma sub-américa macabra, despedaçada por super ditadores e protagonizada por sub-presidentes. Sub-evos, sub-hugos, sub-dilmas.
Continuo a não chorar por ti América Latina e chorarei menos ainda depois de consumada na Venezuela essa aventura doidivana. Não és digna de sequer uma lágrima minha. Não enquanto deres guarida a caudilhos e ditadores. Meu pranto e meu lamento eu os dedico às Marias e Raimundas de todos os idiomas, de todos os sotaques, de todas as nacionalidades.
É pouco, quase nada, mas é o que me resta.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"Partícula de Deus"

Perto de 'Partícula de Deus', cientistas fazem anúncio nesta terça-feira

Relatório sobre o progresso da busca pelo bóson de Higgs, a partícula que confere massa a todas as coisas, será apresentado na Suíça

Marco Túlio Pires
O Grande Colisor de Hadrons (LHC, na sigla em inglês)é usado para ajudar a responder as questões mais fundamentais da física (Getty Images)



Nesta terça-feira, cientistas do Cern, o centro de pesquisas nucleares da Europa, farão um anúncio sobre os últimos avanços obtidos na busca pelo Bóson de Higgs, a 'partícula de Deus'. A confirmação é crucial para entender o universo. O Bóson de Higgs é uma partícula teórica que confere massa à matéria. Sem ela, o Modelo Padrão da Física, que explica a estrutura de todas as coisas, não funcionaria.O Higgs nunca foi observado em experimentos.
ELÉTRON-VOLT (eV)
O elétron-volt (eV) é uma unidade de medida que representa a quantidade de energia que um elétron ganha ao ser acelerado com a ajuda de 1 volt, no vácuo. A massa das partículas pode ser expressa em termos de elétron-volt. A relação se dá pela equação de Albert Einstein em que a energia é igual à massa vezes a velocidade da luz ao quadrado.
Encontrar a 'partícula de Deus' é o principal objetivo do Grande Colisor de Hadrons (LHC, na sigla em inglês), o maior acelerador de partículas do mundo, que custou 10 bilhões de dólares e é controlado pelo CERN. Dois experimentos independentes, chamados Atlas e CMS, procuram pelo Higgs.

O clima no Cern é de empolgação entre os físicos. Informações iniciais indicam que a caçada pela partícula está próxima do fim. Em entrevista ao site de VEJA, o físico brasileiro Rogério Rosenfeld, que trabalha no Cern, disse: "Os resultados importantes sobre o Higgs estão sendo produzidos há um ano e até o fim de 2012 devemos confirmar ou não sua existência".

Especialista responde

Rogério Rosenfeld

Doutor em física, professor da Universidade Estadual de São Paulo e especialista em partículas elementares. Trabalha no Cern, o centro europeu de pesquisas nucleares

Como é feita a procura pelo Bóson de Higgs? A procura é feita por meio da colisão de prótons no LHC. Podemos calcular a probabilidade de se produzir um bóson de Higgs nessa colisão, mas ele se desintegra rapidamente. Procura-se então por seus produtos de desintegração
Como é medida a massa do bóson de Higgs? Pela famosa fórmula de Albert Einstein (energia é igual à massa vezes velocidade da luz ao quadrado). Podemos inferir a massa da partícula pelo intervalo de energia registrado durante as explosões. Sabemos que encontraremos o Higgs em energias que variam entre 114 e 141 GeV (Giga elétron-volts, ou um bilhão de elétron-volts) ou acima de 450 GeV. O LHC pode testar a existência da partícula até 700 GeV. Contudo, é muito improvável que ele esteja perto do limite do LHC, por ser menos justificável do ponto de vista teórico.
Por que é tão difícil encontrá-lo? Por dois motivos: a probabilidade de produção não é muito grande e existem vários outros processos ocorrendo ao mesmo tempo. Separar o joio (o bóson de Higgs) do trigo (outros processos) não é uma tarefa fácil.
Por que demora tanto para confirmar a existência do bóson de Higgs? Os físicos procuram o Higgs há 30 anos em experimentos ao redor do mundo. O LHC demorou 20 anos para ser construído. Os resultados importantes sobre o Higgs estão sendo produzidos há um ano e até o fim de 2012 devemos confirmar ou não sua existência.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O QUE É POBREZA?


Por Dimas Cunha

Define-se como pobre aquele que é desprovido do necessário. Que vive com poucas posses. Mal dotado, pouco favorecido.São situações que fazem parte do cotidiano de  um  indivíduo pobre: indigência, miséria, penúria.Por sua vez, pobreza é o estado ou qualidade de pobre.Falta de recursos, de haveres.Indigência é  pobreza extrema; a falta do necessário para viver;do necessário para a sobrevida.

No Brasil, o IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, do Ministério do Planejamento classifica como pobres os brasileiros que possuem uma renda mensal correspondente a 50% do salário mínimo de 545 reais, ou seja, 272,50 reais.Classifica como pobre ao extremo ou  situado em pobreza extrema os indivíduos que têm uma renda mensal  correspondente a 25% do salário mínimo, ou seja, 135,25 reais  e pobreza familiar as famílias que possuem uma renda equivalente a 75% do salário mínimo ou 408,75 reais.
De acordo dom a Constituição Federal o salário de um trabalhador no país deve ser suficiente para suprir suas necessidades básicas. O salário mínimo necessário é o que segue o preceito constitucional de atender às necessidades vitais do cidadão e de sua família:
moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social.
         O Salário mínimo do trabalhador do País deveria ter sido de 2.212,66 reais - em julho de 2011 - para que ele suprisse suas necessidades básicas e da família, conforme estudo divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). No mesmo período, o valor da cesta básica em São Paulo era de 263,38 reais. Considerando o valor do atual salário mínimo pago aos trabalhadores de 545 reais, deduzindo o valor da cesta básica (R$ 263,38) e o desconto da previdência social (R$ 59,95) fica um saldo de R$ 221, 67 para custear: moradia, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, e transporte. Essas são as necessidades básicas do trabalhador.
         Há uma divergência de dados e informações sobre pobreza entre os órgãos do governo. Enquanto os dados sobre classes sociais apontam como pertencentes à classe E os que têm rendimentos mensais de até R$ 70,00 - a camada social mais desfavorecida economicamente - o IPEA classifica os que têm rendimentos quase o dobro como pobres ao extremo. A divergência de dados e informações pode estar relacionada à metodologia aplicada ou ao interesse de quem os fornece.
Dados divulgados pelo IBGE em novembro de 2011 sobre o Censo de 2010 colhidos nas visitas realizadas em 67,5 milhões de domicílios em 5.565 municípios das 27 unidades da federação mostram que a população brasileira é pobre. O rendimento médio mensal é de 668,00 reais, mas 25% dos brasileiros ( 47,6 milhões) recebem até 188,00 reais, metade da população ( 95,4 milhões) recebia no ano passado até 375,00 reais, valor inferior ao salário mínimo vigente, de 510 reais.
CRITÉRIO
O IBGE divide as categorias das classes sociais de acordo com a renda familiar mensal. Estão na classe E as pessoas com renda de até 751 reais. Na classe D figuram as famílias que recebem entre 751 e 1.200 reais por mês.
A classe C é composta de famílias com renda entre 1.200 e 5.174 reais.
A classe B inclui pessoas com renda familiar entre 5.174 e 6.745 reais. As famílias que ganham por mês mais do que 6.745 reais é considerada classe A pelo IBGE.
Levando em consideração os dados socioeconômicos fornecidos pelo IBGE em novembro de 2011 que apontam para um salário médio de 668 reais dos trabalhadores brasileiros, fica claro que algumas pesquisas sobre classes sociais no país carecem de uma avaliação crítica. O desenho socioeconômico apresentado pelo governo e pela FGV – Fundação Getúlio Vargas não corresponde à realidade encontrada pelo Censo de 2010.
Sobre o tema o jornalista Thomas Friedman, vencedor de três prêmios Pulitzer e autor do Best seller “O Mundo É Plano”, a definição de classe média é uma idéia, e não depende da renda: “classe média é outro jeito de descrever pessoas que acreditam que saíram de um patamar de pobreza ou classe baixa, para um nível de vida bom e melhor para seus filhos”(grifo nosso).





Os resultados de duas pesquisas revelam a face perversa do país de mentira



Mauro Pereira
Os resultados de pesquisas publicadas recentemente pelo IBGE e pela UNICEF ─ a primeira dando conta que 70% dos domicílios em território brasileiro convivem com o esgoto a céu aberto e que a maioria não dispõe de água tratada, a segunda informando que cerca de 40% dos adolescentes com idade entre 12 e 17 anos vivem abaixo da linha da pobreza e 20% não sabem ler nem escrever ─ revelam a face perversa de uma nação injusta e desigual, desfigurada por uma de suas mais graves crises sociais. Os desdobramentos poderão levar a conseqüências devastadoras num futuro não muito longínquo.
É a consagração do país de mentira, que insiste em esconder em espetaculosas propagandas oficiais a degradação de milhões de brasileiros abandonados ao deus dará. É a mentira na sua pior forma, que escancara as mazelas de um governo refém dos partidos que o sustentam politicamente e próximo de afogar-se no mar de corrupção que o está inviabilizando. Dessa distorção decorre o inevitável relacionamento mais estreito com a prática nefasta de políticas paternalistas que exaltam a submissão e são diminuídas ainda mais pelo viés eleitoreiro que as caracteriza
Os números aterradores das duas pesquisas evidenciam as precárias condições de vida a que está confinada uma parcela significativa da população. Pelo conteúdo da propaganda governista, que polui todos os meios de comunicação disponíveis, não há previsão de investimentos significativos nesse setor. Não me lembro de ter visto nesses nove anos de desgoverno petista qualquer peça publicitária divulgando algum programa sério, principalmente voltado para o saneamento básico, preocupado em sequer amenizar os efeitos desse quadro desolador. Nego-me a levar em conta aqueles tendenciosamente assistencialistas.
Representantes autonomeados da sociedade mais desenvolvida do mundo zombam do sofrimento que flagela esses nossos irmãos ao festejarem um absurdo aporte financeiro solicitado pelo Fundo Monetário Internacional: “De tomador de empréstimos agora emprestamos dinheiro ao FMI e a oposição ainda tem a coragem de afirmar que nada mudou”, exulta um dos orgulhosos arautos do país acima de qualquer suspeita. Mudou, sim, e muito. A malha de proteção social transformou-se em título de capitalização eleitoral. No entanto, a política econômica concebida pela equipe do então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, implantada pelo presidente Itamar Franco lá nos idos de 1994 e que é a única responsável pela ascensão do Brasil à condição de credor do FMI, ainda permanece a mesma. Intocável. Só não se lembram dessa verdade que os tortura os cafajestes usurpadores do talento alheio.
Cada centavo destinado ao FMI significará um quilômetro a menos de rede de esgoto instalada, uma criança a mais que não completará um ano de vida, o sonho abreviado de um adolescente fadado a vegetar pela vastidão da ignorância e condenado a ser apenas outro número nas estatísticas policiais. A soberba petista agüenta. Sinto uma vergonha que não deveria ser minha.
Outro fato preocupante é a visível indiferença da imprensa e dos congressistas que foram eleitos para atuarem, na oposição. Mais preocupada em abocanhar um naco generoso da ufanista propaganda oficial, a mídia se limitou a transmitir informações meramente circunstanciais dessa tragédia humana que está negando a crianças e adolescentes as mais comezinhas expectativas de uma vida menos sofrida. Também não é muito diferente a realidade entre os jovens e os adultos.
Nenhum órgão de informação se atreveu a investigar com maior rigor esse Brasil esquecido pelas autoridades. Sem exceção, a televisiva, pelo menos, presta-se às tarefas subalternas de, numa ponta glorificar a ocupação de favelas cariocas, tudo sem disparar um tiro e prender os chefões da bandidagem antes mesmo do início da operação cinematográfica com data e hora marcada e, na outra, dar vazão a uma sórdida campanha visando desacreditar os órgãos de segurança do Estado de São Paulo. O som do silêncio vigarista avisa que na capital do Brasil Maravilha foram abolidos os assaltos, os roubos, os latrocínios, os homicídios, os seqüestros, a pedofilia. Desde a retomada da Rocinha, nenhuma mulher foi violentada, nenhum homem foi molestado.
A oposição também não vê, ou finge que não vê, a precária subsistência dessas dezenas de milhões de crianças e adolescentes e não se articula para exigir medidas drásticas e urgentes para combater a calamidade que salta aos olhos. Pelo jeito, nem o interesse eleitoral a comove. Perde um tempo precioso na tentativa vã de emplacar CPIs que sabe de antemão jamais se concretizarão. Ainda que por estradas distintas, senadores e deputados oposicionistas passeiam pelo mesmo caminho da covarde indiferença trilhado pelo governo e sua base aliada.
Com a dignidade dilacerada pela crueza desse cotidiano hostil e atroz, vários milhões de sub-brasileiros representados por crianças, jovens, idosos, homens e mulheres ainda estão à espera de que algum outro navegante português de competência duvidosa se perca pelos mares do sul e os descubra. Desiludidos, perceberam tarde demais que o Brasil Maravilha inventado por Lula não foi capaz de descobrí-los.
Impermeável a manipulações, a realidade fria e insensível cobra o seu tributo e remete a sétima economia do planeta às mais sombrias profundezas dos grotões do atraso e do subdesenvolvimento. Acuada, prevalece a servidão que elege.