Foto: Alex Platt / CNN
Médico que descobriu o ebola alerta para vírus mortais que ainda estão por vir
Kinshasa, República Democrática do
Congo – Apresentando os primeiros sintomas de febre hemorrágica, a paciente
senta-se calmamente em sua cama, tentando acalmar duas crianças pequenas
desesperadas para fugir do quarto de hospital em forma de célula. A cena
acontece em Ingende, uma cidade remota na República Democrática do Congo (RDC).
A mãe e as
crianças aguardam o resultado de um teste de ebola.
A paciente
só pode se comunicar com seus parentes por meio de uma janela de observação de
plástico transparente. Sua identidade é secreta, para protegê-la de ser
condenada ao ostracismo por moradores locais com medo de uma infecção por
ebola. Seus filhos também foram testados, mas, por enquanto, não apresentam
sintomas.
Existe uma vacina e um
tratamento para o ebola, que diminuíram a taxa de mortalidade do vírus.
Entretanto, a questão
na cabeça de todos ali era: e se essa mulher não tiver ebola? E se, em vez
disso, ela for a paciente zero da “Doença X”, a primeira infecção conhecida de
um novo patógeno que poderia varrer o mundo tão rápido quanto a Covid-19, mas
com a taxa de mortalidade de 50% a 90% do ebola?
Isso não é coisa de ficção
científica. É um medo científico, baseado em fatos científicos.
“Todos nós devemos ter medo”,
disse o médico da paciente, doutor Dadin Bonkole. “O ebola era desconhecido. A
covid era desconhecida. Temos que ter medo de novas doenças. "
Ameaça à humanidade
A humanidade enfrenta um número
não estimado de vírus novos e potencialmente fatais emergindo das florestas
tropicais da África, de acordo com o professor Jean-Jacques Muyembe Tamfum, que
ajudou a descobrir o vírus ebola em 1976 e tem estado na linha de frente da
caça por novos patógenos desde então.
“Estamos agora em um mundo onde
novos patógenos surgirão”, disse ele à CNN. “Isso é uma ameaça para a
humanidade."
Quando jovem pesquisador, Muyembe
coletou as primeiras amostras de sangue das vítimas de uma doença misteriosa
que causava hemorragias e matou cerca de 88% dos pacientes e 80% da equipe que
trabalhava no Hospital Missionário Yambuku.
Os frascos de sangue foram
enviados para a Bélgica e os EUA, onde os cientistas encontraram um vírus em
forma de verme. Eles o chamaram de “ebola”, em homenagem ao rio próximo ao
surto no país, que na época se chamava Zaire.
A identificação do ebola contou
com uma rede que conectou as partes mais remotas das florestas tropicais da
África a laboratórios de alta tecnologia no Ocidente.
Agora, o Ocidente deve contar com
cientistas africanos no Congo e em outros lugares para atuar como sentinelas
para alertar contra doenças futuras.
Em Ingende, o medo de encontrar
um novo vírus mortal continuou muito real, mesmo após a recuperação da paciente
do primeiro parágrafo deste texto, com sintomas semelhantes aos do ebola.
Suas amostras foram testadas no
local e enviadas para o Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica (INRB) do
Congo em Kinshasa, onde foram testadas para outras doenças com sintomas
semelhantes. Todos os testes deram negativo. A doença que a afetou permanece um
mistério.
Falando com exclusividade à CNN
na capital da RDC, Kinshasa, Muyembe alertou para muitas mais doenças
zoonóticas (aqueles que saltam de animais para humanos) por vir.
Febre amarela, várias formas de
gripe, raiva, brucelose e doença de Lyme estão entre as que passam de animais
para humanos, muitas vezes por meio de um vetor, como um roedor ou um inseto.
Eles já causaram epidemias e
pandemias antes.
O HIV emergiu de um tipo de
chimpanzé e se transformou em uma praga moderna mundial. SARS, MERS e o vírus
da Covid-19, conhecido como SARS-CoV-2, são coronavírus que se espalharam para
os humanos de “reservatórios” – o termo que os virologistas usam para designar
os hospedeiros naturais do vírus – desconhecidos no reino animal. Acredita-se
que a Covid-19 tenha se originado na China, possivelmente nos morcegos.
Perguntamos ao doutor Muyembe se
ele acha que futuras pandemias poderiam ser piores do que Covid-19, mais
apocalípticas. “Sim, sim, acho que sim”, afirmou.
Novos vírus em ascensão
Desde que a primeira infecção de
animal para humano, a febre amarela, foi identificada em 1901, os cientistas
encontraram pelo menos outros 200 vírus conhecidos por causar doenças em
humanos.
De acordo com a pesquisa de Mark
Woolhouse, professor de epidemiologia de doenças infecciosas da Universidade de
Edimburgo, novas espécies de vírus estão sendo descobertas a uma taxa de três a
quatro por ano. A maioria tem origem animal.
Especialistas dizem que o número
crescente de vírus emergentes é em grande parte resultado da destruição
ecológica e do comércio de animais selvagens.
Conforme os habitats naturais
desaparecem, espécies como ratos, morcegos e insetos sobrevivem onde predadores
maiores são exterminados. Eles podem viver ao lado de seres humanos e são
frequentemente suspeitos de serem os vetores que podem transmitir novas
doenças.
Os cientistas relacionaram os
surtos de ebola anteriores a uma forte incursão humana na floresta tropical. Em
um estudo de 2017, os cientistas usaram dados de satélite para determinar que
25 dos 27 surtos de ebola localizados ao longo dos limites do bioma da floresta
tropical na África Central e Ocidental entre 2001 e 2014 começaram em locais
que haviam sofrido desmatamento cerca de dois anos antes.
Segundo eles, surtos zoonóticos
de ebola apareceram em áreas onde a densidade populacional humana era alta e o
vírus tem condições favoráveis, mas que a importância relativa da perda de
floresta é parcialmente independente desses fatores.
Nos primeiros 14 anos do século
21, uma área maior que o tamanho de Bangladesh foi derrubada na floresta
tropical da bacia do rio Congo.
As Nações Unidas alertaram que,
se as tendências atuais de desmatamento e crescimento populacional continuarem,
a floresta tropical do país pode desaparecer completamente até o final do
século. Quando isso acontecer, os animais e os vírus que eles carregam irão
colidir com as pessoas de maneiras novas e frequentemente desastrosas.
Só que não precisa ser assim.
Um grupo multidisciplinar de
cientistas com base nos EUA, China, Quênia e Brasil calculou que um
investimento global de US$ 30 bilhões por ano em projetos para proteger as
florestas tropicais e interromper o comércio de vida selvagem e a agricultura
seria suficiente para compensar o custo de prevenção de futuras pandemias.
Escrevendo na revista “Science”,
o grupo disse que gastar US$ 9,6 bilhões por ano em esquemas de proteção
florestal global pode levar a uma redução de 40% no desmatamento global em
áreas com maior risco de disseminação de vírus.
As medidas podem incluir dar
incentivos às pessoas que vivem nas e das florestas e proibir a extração de
madeira em geral e a comercialização do comércio de animais selvagens.
Segundo cientistas, um programa
semelhante no Brasil levou a uma queda de 70% no desmatamento entre 2005 e
2012.
Embora US$ 30 bilhões por ano
possam parecer muito, os cientistas argumentam que o investimento se pagaria
rapidamente. A pandemia de coronavírus custará apenas aos EUA cerca de US$ 16
trilhões nos próximos 10 anos, de acordo com os economistas de Harvard David
Cutler e Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA.
O FMI estima que, globalmente, a
pandemia custará US$ 28 trilhões em produção perdida entre 2020 e 2025, em
relação às projeções pré-pandemia.
O sistema de alerta precoce
Muyembe agora dirige o INRB em Kinshasa.
Alguns cientistas ainda estão
sentados nos escritórios apertados no antigo complexo do instituto onde Muyembe
trabalhou pela primeira vez com o ebola nos anos 1970, mas outros estão em
novos laboratórios, abertos em fevereiro.
O INRB é apoiado pelo Japão,
Estados Unidos, UE, Organização Mundial da Saúde e outros doadores
internacionais, incluindo ONGs, fundações e instituições acadêmicas
Com laboratórios de nível de
biossegurança 3, capacidade de sequenciamento de genoma e equipamentos de
altíssimo nível, as instalações não são um ato de ajuda beneficente: são um
investimento estratégico.
Apoiados pelos Centros de
Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e pela Organização Mundial
da Saúde, os laboratórios INRB são o sistema de alerta precoce do mundo para
novos surtos de doenças conhecidas como o ebola e, talvez mais importante, para
aquelas que ainda não descobrimos.
“Se um patógeno emergir da
África, levará tempo para se espalhar por todo o mundo”, disse Muyembe.
“Portanto, se este vírus for detectado precocemente – em lugares como na minha
instituição aqui – haverá oportunidade para a Europa [e o resto do mundo]
desenvolver novas estratégias para combatê-los”.
Muyembe tem unidades de
reconhecimento na linha de frente da guerra contra novos patógenos. Médicos,
virologistas e pesquisadores estão trabalhando bem no interior da RDC,
procurando vírus conhecidos e desconhecidos antes que possam causar novas pandemias.
Dois deles são Simon Pierre
Ndimbo e Guy Midingi, ecologistas e caçadores de vírus na província de
Équateur, no noroeste da RDC, onde fica a cidade de Ingende. Eles são a
primeira ponta para sinais de doenças infecciosas emergentes (EIDs na sigla em
inglês).
Em uma expedição recente, a dupla
coletou 84 morcegos, retirando-os meticulosamente de suas redes e amarrando em
sacos os animais que guinchavam e os beliscavam.
“É preciso ter cuidado. Caso
contrário, eles mordem”, explicou Midingi, com as mãos em luvas duplas para
proteção.
Uma única mordida de morcego pode
ser o momento de uma nova doença fazer o salto dos animais para os humanos.
Ndimbo afirma que a prioridade
deles é procurar sinais de infecção por ebola nos morcegos. O último surto da
doença na província de Équateur foi atribuída à transmissão de pessoa para
pessoa. Ao mesmo tempo, presume-se também que ele tenha vindo de uma nova cepa
gerada em um animal reservatório da floresta. E ninguém sabe onde está ou o que
é esse reservatório.
De volta ao laboratório em
Mbandaka, os morcegos passam por testes de swab e amostras de sangue são
coletadas para testar o ebola antes de serem enviadas ao INRB para testes
adicionais. Os morcegos são então soltos.
Dezenas de novos coronavírus
foram encontrados em morcegos nos últimos anos. Ninguém sabe o quanto eles
podem ser perigosos para os humanos.
Exatamente como o ebola infectou
os humanos pela primeira vez permanece um mistério, mas os cientistas acreditam
que doenças zoonóticas como a febre hemorrágica do ebola e a Covid-19 dão o
salto quando animais selvagens são estripados.
A carne de caça é a fonte
tradicional de proteína para as pessoas que vivem nas florestas tropicais, mas
atualmente é comercializada longe de onde é caçada, em esquemas globais de exportação.
Estimativas da ONU mostram que até 5 milhões de toneladas de carne de caça são
retiradas da bacia do rio Congo a cada ano.
Em Kinshasa, um comerciante
brandia a carcaça defumada de um macaco colobus, com os dentes expostos em um
sorriso horrível e petrificado. O ambulante vende os pequenos primatas por US$
22, embora o preço, diz ele, seja “negociável”.
Os macacos colobus foram caçados
até a extinção em algumas partes da RDC, mas o vendedor disse que poderia
exportar muitos deles para a Europa de avião.
“Tenho que ser honesto, é
proibido enviar macacos”, explica. “Temos que cortar suas cabeças e braços e embalá-los
entre as outras carnes”.
Ele diz que recebe entregas todas
as semanas, muitas vezes da cidade de Ingende, cerca de 650 quiômetros rio
acima - a mesma aldeia onde os médicos vivem com medo do surgimento de uma nova
pandemia.
Adams Cassinga, CEO da Conserv
Congo e investigador de crimes contra a vida selvagem, disse que “só em
Kinshasa, temos entre cinco e 15 toneladas de carne de caça exportada [por
ano]. Algumas vão para as Américas, mas a maior parte vai para Europa.
Principalmente para Bruxelas, Paris e Londres”.
Macacos defumados, partes
enegrecidas de píton e presuntos de sitatunga, um antílope aquático, são
macabros. Mas é improvável que carreguem vírus perigosos, que seriam mortos
pelo processo de cozimento, embora os cientistas tenham alertado que até mesmo
a carne de primata cozida não é totalmente segura.
Os animais vivos nos chamados
mercados “úmidos” representam uma ameaça maior.
Neles, crocodilos jovens (com
seus focinhos fechados com arame e as pernas amarradas) se contorcem um em cima
do outro. Os comerciantes oferecem barris de caracóis terrestres gigantes,
jabutis e tartarugas de água doce. Em outros lugares, há mercados negros de
chimpanzés vivos e animais mais exóticos, alguns negociados em coleções
particulares, outros indo para a panela.
A “Doença X” pode estar fazendo
tique-taque dentro de qualquer um desses animais, trazidos para a metrópole por
pessoas pobres que nutrem o gosto dos ricos por comidas e animais de estimação
exóticos.
“Ao contrário do que diz a crença
popular, carne de caça aqui, em áreas urbanas, não é para os pobres, é para os
ricos e privilegiados. Há até altas autoridades que acreditam na superstição de
que se você consumir um certo tipo de carne de caça, vai ter força”, contou
Cassinga. “Há também pessoas que consomem como símbolo de status.
Além disso, tivemos também nos
últimos 10 a 20 anos um afluxo de expatriados, principalmente do Sudeste
Asiático, que exigem comer certos tipos de carne, como tartarugas, cobras e
primatas”.
Cientistas já vincularam esses tipos
de mercados úmidos a doenças zoonóticas. O vírus da influenza H5N1, conhecido
como gripe aviária, e a SARS surgiram a partir deles.
A origem exata do coronavírus que
causa a Covid-19 não foi confirmada. Mas a maior suspeita de sua origem recai
sobre os mercados "úmidos", onde animais vivos são vendidos e
abatidos para obter carne.
A comercialização do comércio de
carne de caça é uma rota potencial de infecção. É também um sintoma da
devastação da floresta tropical do Congo, a segunda maior do mundo depois da
Amazônia.
A maior parte da destruição é
conduzida por agricultores locais, que dependem da floresta economicamente: 84%
do desmatamento da floresta é para abrir espaço para agricultura familiar.
No entanto, as técnicas de corte
e queima usadas pelos habitantes locais aumentam a exposição humana a esse
território outrora virgem e seus animais selvagens, um importante fator de
risco para doenças.
“Quando alguém entra na floresta,
muda a ecologia; e os insetos e ratos sairão deste lugar e irão para as aldeias,
e com eles a transmissão dos vírus, dos novos patógenos”, disse Muyembe.
De volta ao Hospital Ingende, os
médicos estão usando todos os equipamentos que podem ser encontrados: óculos de
proteção, macacão de risco biológico amarelo, luvas duplas fechadas com fita
adesiva, capuzes na cabeça e nos ombros, galochas sobre os sapatos e máscaras
complexas.
Eles ainda estão preocupados que
a paciente possa estar apresentando sintomas de uma doença semelhante ao ebola
que não é, na verdade, o ebola. Pode ser um novo vírus, também pode ser uma das
muitas doenças que afligem as pessoas aqui e que já são conhecidas pela
ciência. Mas nenhum dos testes feitos aqui explicou sua febre alta e diarreia.
“Recebemos casos que se parecem
muito com o ebola, mas quando fazemos os testes, eles dão negativo”, afirmou o
chefe dos serviços médicos em Ingende, doutor Christian Bompalanga.
“Temos que fazer exames
adicionais para ver o que realmente está acontecendo. No momento há alguns
casos suspeitos por lá", acrescentou, apontando para a ala de isolamento
onde a jovem e seus filhos estão sendo tratados. Semanas depois, ainda não
havia um diagnóstico claro de sua doença.
Assim que um novo vírus começa a
circular entre humanos, as consequências de um breve encontro na borda de uma
floresta ou em um mercado úmido podem ser devastadoras.
A Covid-19 mostrou isso. O ebola
provou isso. Na maioria das publicações científicas existe a suposição de que
haverá mais contágios chegando, à medida que os humanos continuam a destruir os
habitats selvagens. Não é um caso de “se” e sim de “quando”.
“A solução é clara. Proteja as
florestas para proteger a humanidade – porque a Mãe Natureza tem armas mortais
em seu arsenal.
Ingrid Formanek e Ivana
Kottasová, da CNN, contribuíram para esta reportagem. Edição de vídeo por Mark
Baron. Agradecemos aos doutores Meris Matondo e Richard Ekila do INRB, o
Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica do Congo, por sua orientação durante o
relato desta história.